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terça-feira, 27 de outubro de 2026 Brasil

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Cerca elétrica no Pantanal: solução barata para prejuízo rural

Uma onça-pintada monitorada pelo Instituto Impacto no Pantanal de Mato Grosso, batizada de Cyntia, foi reencontrada cerca de um ano depois com dois filhotes, em propriedade onde os ataques ao gado cessaram após a instalação de um curral elétrico de fechamento noturno, segundo reportagem de O Globo.

Onça que atacava gado reaparece com filhotes no Pantanal. Cercas elétricas reduziram predação em 83% em pesquisa e mudam a conta econômica do conflito rural.

O caso relatado por O Globo tem aparência de crônica de fauna, mas é, no fundo, um problema clássico de economia rural: quem paga pelo custo de conviver com um predador protegido por lei e valorizado pela sociedade?

Segundo a reportagem, a onça Cyntia predava animais de criação de uma pequena propriedade ribeirinha em Mato Grosso. Os ataques afetavam a rotina e o sustento dos produtores, identificados como seu Zé e dona Gonza, que chegaram a considerar mudar para a cidade. A solução adotada foi a instalação de um curral elétrico de fechamento noturno, mantendo o rebanho protegido no período de maior vulnerabilidade. Depois das cercas, informa o Instituto Impacto, não houve novas perdas provocadas por onças naquela propriedade.

O custo privado de um benefício coletivo

A economia chama isso de externalidade. A conservação da onça-pintada gera benefícios difusos, que vão do equilíbrio ecológico ao turismo de observação. Já o prejuízo com a perda de cabeças de gado recai integralmente sobre um produtor específico, muitas vezes de baixa escala. Quando o custo é privado e o benefício é coletivo, o incentivo individual tende a empurrar o produtor para a solução mais barata para ele: eliminar ou afastar o animal, ou abandonar a atividade. Para uma pequena propriedade, a perda de poucos animais pode representar fatia relevante do patrimônio produtivo.

Tecnologia simples muda a equação

A cerca eletrificada atua exatamente nesse ponto. Ao reduzir a perda esperada, ela diminui o custo de coexistir e enfraquece o incentivo ao conflito. A pesquisa citada pelo instituto, realizada na Pousada Piuval, em Poconé (MT), registrou redução de 83% na predação, sem ataques dentro das áreas protegidas pelas estruturas eletrificadas. O material também relata aprendizado dos animais: uma onça subadulta tentou acessar um curral, recebeu choque e recuou, e outras que observavam passaram a evitar a estrutura. Se esse efeito de aprendizado se confirmar em escala, o benefício por real investido cresce com o tempo, algo raro em medidas de proteção que exigem vigilância permanente.

O que o material não permite afirmar

Faltam informações essenciais para avaliar viabilidade econômica ampla. O material não traz custo de instalação, custo de manutenção, fonte de energia, quem financiou as estruturas nem o número de propriedades atendidas pelo Programa Integrado Pantanal de Coexistência. Sem isso, não é possível dizer se a solução se sustenta sem apoio externo ou se depende de doação e projeto. Também não há dados sobre durabilidade em área alagável.

Ainda assim, o episódio sugere um caminho de política pública mais eficiente do que compensar prejuízos depois de ocorridos: reduzir a chance do dano. Prevenção barata costuma custar menos que indenização recorrente, e preserva a atividade produtiva no território.

📊 Número do Dia

83% , Redução na predação registrada em pesquisa do Instituto Impacto na Pousada Piuval, em Poconé (MT), com uso de cercas eletrificadas; nenhum ataque foi registrado dentro das áreas protegidas.

Por que isso importa

O conflito entre produtores rurais e predadores protegidos transfere um custo coletivo de conservação para poucos produtores, geralmente pequenos. Tecnologias de baixo custo que reduzem a perda esperada podem tornar a coexistência economicamente viável, evitando tanto o abandono da propriedade quanto a retirada ou a morte do animal.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/09/29/onca-pintada-que-atacava-gado-reaparece-com-dois-filhotes-no-pantanal-apos-um-ano.ghtml