O caso relatado por O Globo tem aparência de crônica de fauna, mas é, no fundo, um problema clássico de economia rural: quem paga pelo custo de conviver com um predador protegido por lei e valorizado pela sociedade?
Segundo a reportagem, a onça Cyntia predava animais de criação de uma pequena propriedade ribeirinha em Mato Grosso. Os ataques afetavam a rotina e o sustento dos produtores, identificados como seu Zé e dona Gonza, que chegaram a considerar mudar para a cidade. A solução adotada foi a instalação de um curral elétrico de fechamento noturno, mantendo o rebanho protegido no período de maior vulnerabilidade. Depois das cercas, informa o Instituto Impacto, não houve novas perdas provocadas por onças naquela propriedade.
O custo privado de um benefício coletivo
A economia chama isso de externalidade. A conservação da onça-pintada gera benefícios difusos, que vão do equilíbrio ecológico ao turismo de observação. Já o prejuízo com a perda de cabeças de gado recai integralmente sobre um produtor específico, muitas vezes de baixa escala. Quando o custo é privado e o benefício é coletivo, o incentivo individual tende a empurrar o produtor para a solução mais barata para ele: eliminar ou afastar o animal, ou abandonar a atividade. Para uma pequena propriedade, a perda de poucos animais pode representar fatia relevante do patrimônio produtivo.
Tecnologia simples muda a equação
A cerca eletrificada atua exatamente nesse ponto. Ao reduzir a perda esperada, ela diminui o custo de coexistir e enfraquece o incentivo ao conflito. A pesquisa citada pelo instituto, realizada na Pousada Piuval, em Poconé (MT), registrou redução de 83% na predação, sem ataques dentro das áreas protegidas pelas estruturas eletrificadas. O material também relata aprendizado dos animais: uma onça subadulta tentou acessar um curral, recebeu choque e recuou, e outras que observavam passaram a evitar a estrutura. Se esse efeito de aprendizado se confirmar em escala, o benefício por real investido cresce com o tempo, algo raro em medidas de proteção que exigem vigilância permanente.
O que o material não permite afirmar
Faltam informações essenciais para avaliar viabilidade econômica ampla. O material não traz custo de instalação, custo de manutenção, fonte de energia, quem financiou as estruturas nem o número de propriedades atendidas pelo Programa Integrado Pantanal de Coexistência. Sem isso, não é possível dizer se a solução se sustenta sem apoio externo ou se depende de doação e projeto. Também não há dados sobre durabilidade em área alagável.
Ainda assim, o episódio sugere um caminho de política pública mais eficiente do que compensar prejuízos depois de ocorridos: reduzir a chance do dano. Prevenção barata costuma custar menos que indenização recorrente, e preserva a atividade produtiva no território.
📊 Número do Dia
83% , Redução na predação registrada em pesquisa do Instituto Impacto na Pousada Piuval, em Poconé (MT), com uso de cercas eletrificadas; nenhum ataque foi registrado dentro das áreas protegidas.
Por que isso importa
O conflito entre produtores rurais e predadores protegidos transfere um custo coletivo de conservação para poucos produtores, geralmente pequenos. Tecnologias de baixo custo que reduzem a perda esperada podem tornar a coexistência economicamente viável, evitando tanto o abandono da propriedade quanto a retirada ou a morte do animal.
Fonte original: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/09/29/onca-pintada-que-atacava-gado-reaparece-com-dois-filhotes-no-pantanal-apos-um-ano.ghtml
