O Pisa — uma prova internacional aplicada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) a cada três anos para medir o aprendizado em Leitura, Matemática e Ciências de jovens de 15 anos — revelou um cenário preocupante em 2025. Segundo a OCDE, a média dos países desenvolvidos nunca foi tão baixa em Leitura e Matemática desde que a avaliação começou. Alemanha, Coreia do Sul e Estados Unidos chegaram aos menores patamares de suas séries históricas.
A Finlândia, que no começo dos anos 2000 era referência mundial e recebia educadores de todos os cantos do planeta, perdeu 72 pontos em Leitura desde 2000 (passou de 546 para 474 pontos). Isso representa uma queda de 13% no desempenho, sendo que 72% dessa perda aconteceu nos últimos dez anos. Até Cingapura, atual líder em Leitura, registrou queda de 14 pontos desde 2018 (de 549 para 535).
O Brasil no meio da tempestade
O Brasil, que está estagnado há uma década, tem um desafio duplo: lidar com os mesmos problemas globais enquanto tenta fazer com que seus alunos cheguem ao básico. Segundo os dados divulgados pela OCDE, 51% dos estudantes brasileiros não atingem o nível básico de Leitura — imagine que metade dos jovens de 15 anos não consegue compreender adequadamente um texto simples ou tirar conclusões básicas do que lê.
A título de comparação, na Turquia — um dos poucos países que comemoraram os resultados — apenas 26% dos alunos estão abaixo do básico em Leitura. O país registrou 44 pontos a mais em 2025 do que em 2015, alcançando o patamar de países desenvolvidos. Analistas turcos apontam que o segredo foi adaptar as provas internas ao modelo do Pisa e investir pesadamente na qualificação de professores.
Celulares e redes sociais no banco dos réus
Andreas Schleicher, diretor de Educação da OCDE, foi direto: “A gente não vê no Pisa nada positivo no uso de mídias sociais”. A organização identificou uma forte relação entre o uso de dispositivos digitais para lazer e piores resultados acadêmicos — é como se o tempo gasto em redes sociais roubasse a capacidade de concentração necessária para aprender.
Paulo Blikstein, professor titular da Universidade de Columbia (EUA), pondera que ainda não se sabe qual é a parcela exata de culpa dos celulares. Mas ele sugere uma solução aparentemente simples: “A gente precisa voltar a algumas mídias um pouco mais antigas, como ler livros físicos e fazer anotações em papel, porque a gente sabe pelas pesquisas que há uma retenção muito melhor”.
O que funciona: lições da China
Nas províncias chinesas de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, os professores passam apenas 10 a 12 horas semanais em sala de aula — o restante do tempo é dedicado a planejar aulas, analisar o desempenho dos alunos e se qualificar. Segundo Ingrid Torquato, doutoranda da USP que pesquisa o sistema chinês, as escolas trabalham de forma colaborativa, com intenso rodízio de professores entre unidades para compartilhar conhecimento.
A Finlândia, por outro lado, pode ter sido vítima de um equívoco histórico. Segundo artigo da revista The Economist, as notas altas de 2000 refletiam abordagens educacionais tradicionais da década de 1990 — e não as políticas “progressistas” pelas quais o país ficou famoso. Se essa tese estiver correta, dezenas de sistemas educacionais podem ter seguido o caminho errado nas últimas duas décadas.
📊 Número do Dia
51% , dos alunos brasileiros não atingem o nível básico de Leitura no Pisa 2025, segundo a OCDE
Por que isso importa
Para o cidadão brasileiro, a estagnação no Pisa significa que metade dos jovens está saindo da escola sem conseguir compreender adequadamente um texto — uma habilidade essencial para qualquer trabalho ou para exercer a cidadania. Para empresas, isso representa um desafio crescente para encontrar mão de obra qualificada. E para o país como um todo, a queda global dos líderes educacionais mostra que não há mais um modelo claro a seguir, exigindo que o Brasil encontre seu próprio caminho para melhorar a educação enquanto enfrenta os mesmos desafios digitais que derrubaram potências como Finlândia e Alemanha.
