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Vale-alimentação não cobre o mês inteiro para 62% dos trabalhadores

Vale-alimentação dura apenas 14 dias e 62% dos trabalhadores precisam complementar compras com salário. Novas regras do PAT em vigor desde fevereiro de 2026.
Pesquisa da Pluxee revela que 62% dos trabalhadores brasileiros precisam complementar as compras mensais com o próprio salário, já que o vale-alimentação não é suficiente para cobrir todo o período.

O vale-alimentação é o benefício corporativo mais valorizado pelos trabalhadores brasileiros, mas sua capacidade de cobrir as despesas mensais vem encolhendo. Segundo pesquisa da Ticket, marca de benefícios da Edenred, 76% dos entrevistados consideram que o vale-refeição e o vale-alimentação (benefícios que permitem comprar comida em supermercados ou restaurantes) contribuem diretamente para uma rotina saudável de trabalho. Entre eles, 49% preferem o vale-alimentação, usado para compras no mercado, contra 31% que optam pelo vale-refeição, voltado para restaurantes.

O problema é que o benefício não está acompanhando o aumento do custo de vida. Levantamento da Pluxee realizado em fevereiro de 2026 mostra que 62% dos trabalhadores precisam completar o valor das compras do mês com o próprio salário. Dados da Alelo em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) revelam que a duração média do vale-alimentação foi de apenas 14,3 dias corridos em março deste ano — menos da metade do mês. É como se o trabalhador recebesse combustível suficiente para dirigir apenas até o meio do caminho.

O valor médio do benefício também caiu: de R$ 475,60 no fim de 2025 para R$ 461,60 em março de 2026, segundo a Alelo. Essa redução ocorre justamente quando a inflação de alimentos (o aumento dos preços no supermercado) pressiona o orçamento das famílias brasileiras. A título de comparação, em países europeus como França e Bélgica, os vales-refeição costumam ser ajustados anualmente por acordos coletivos que consideram a inflação, garantindo maior poder de compra ao longo do tempo.

Novas regras em vigor

Desde 10 de fevereiro de 2026, estão em vigor novas medidas do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), estabelecidas pelo Decreto 12.712. As mudanças buscam reduzir custos, aumentar a concorrência entre operadoras e ampliar a liberdade dos usuários. Para os trabalhadores, a principal mudança é a ampliação da liberdade de uso: os cartões passarão a ser aceitos em qualquer maquininha, não apenas em estabelecimentos credenciados por cada operadora. Empresas e operadoras terão até 360 dias para concluir a integração.

Para os estabelecimentos comerciais, a taxa máxima cobrada pelas operadoras (empresas como Ticket, VR, Pluxee e Alelo) passa a ser de 3,6% — antes, esse percentual era livre e podia chegar a 5% ou mais. Além disso, o prazo de repasse dos valores das vendas caiu de cerca de 30 dias para até 15 dias corridos, melhorando o fluxo de caixa (a entrada de dinheiro) dos comerciantes. Empresas como Ticket, VR, Pluxee, Alelo e Vegas Card haviam obtido liminares judiciais que as protegiam de sanções por eventuais descumprimentos do decreto, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitou à Justiça a suspensão dessas decisões, fazendo com que as regras voltem a valer integralmente.

Expansão do benefício

Apesar das limitações de valor, a oferta do vale-alimentação vem crescendo nos últimos anos. Em 2026, a parcela de profissionais sem acesso a qualquer benefício caiu de 11% para 9%, segundo a pesquisa da Ticket. Empresas como Pluxee, Alelo e VR Benefícios afirmaram que a procura e a oferta do vale-alimentação pelas empresas cresceram ao longo dos últimos cinco anos. Antonio Alberto Aguiar, diretor executivo de Estabelecimentos da Pluxee, comenta que “o benefício passou a ocupar um papel estratégico na atração, retenção e engajamento de talentos, especialmente num cenário de aumento do custo de vida”.

A Alelo informou que o aumento tem sido observado especialmente entre pequenos e médios negócios, que antes não ofereciam esse tipo de vantagem. Willian Gil, diretor-executivo de Pessoas, Jurídico e Governança da VR Benefícios, afirma que a ampliação da oferta é uma forma de aumentar o engajamento e reduzir a rotatividade (a troca constante de funcionários) das equipes. Segundo ele, a tendência é que os benefícios continuem crescendo e se tornando mais integrados à rotina das pessoas.

📊 Número do Dia

14,3 dias , Duração média do vale-alimentação em março de 2026, segundo dados da Alelo e Fipe — menos da metade do mês

Por que isso importa

Para o trabalhador, o vale-alimentação é fundamental para o orçamento familiar, mas sua defasagem em relação ao custo de vida significa que o salário líquido precisa cobrir uma fatia maior das despesas básicas. Para as empresas, o benefício se tornou ferramenta estratégica de atração e retenção de talentos, especialmente num mercado de trabalho competitivo. Para o investidor, o setor de benefícios movimenta bilhões de reais anualmente e as novas regras do PAT podem afetar a rentabilidade das operadoras, que terão margens menores e prazos mais curtos.


Fonte original: https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/06/vale-alimentacao-e-o-beneficio-mais-desejado-pelos-trabalhadores-mas-nao-cobre-o-mes-inteiro.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
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