Página inicial / Brasil no Mundo / UE formaliza restrição a carnes brasileiras por antimicrobianos

UE formaliza restrição a carnes brasileiras por antimicrobianos

UE formaliza restrição a carnes brasileiras por falta de garantias sobre antimicrobianos. Medida entra em vigor em setembro e pode barrar US$ 1,6 bi em exportações.
A União Europeia publicou nesta sexta-feira (6) regulamento que retira o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e produtos de origem animal ao bloco. A medida passa a valer em 3 de setembro e afeta bovinos, aves, suínos, peixes de aquicultura, mel e tripas.

A União Europeia formalizou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a vender carnes e outros produtos de origem animal ao mercado europeu. A decisão, publicada no Diário Oficial da UE, entra em vigor em 3 de setembro e pode barrar exportações brasileiras que somaram US$ 1,6 bilhão em 2025 — cerca de 5% do total de US$ 32,3 bilhões que o Brasil vendeu em proteínas animais ao mundo no ano passado, segundo dados da balança comercial.

O motivo da restrição é técnico: a Comissão Europeia afirma que o Brasil não apresentou garantias suficientes de que cumpre as novas regras sobre o uso de antimicrobianos (medicamentos que combatem bactérias) na produção animal. As normas europeias proíbem o uso desses remédios para acelerar o crescimento dos animais ou aumentar a produtividade, além de vetar medicamentos reservados ao tratamento de infecções em humanos. É como se a UE exigisse um certificado de que os produtores brasileiros não usam atalhos químicos para engordar o gado mais rápido — e o Brasil ainda não entregou esse documento de forma satisfatória.

O que está em jogo

A restrição atinge seis categorias de produtos: bovinos, equinos, aves, peixes de aquicultura, mel e tripas. Juntas, essas categorias representaram US$ 627 milhões em exportações para a UE apenas no primeiro quadrimestre de 2025, segundo a balança comercial. A China segue como principal destino da proteína animal brasileira (US$ 3,3 bilhões no período), mas a UE é um mercado estratégico por pagar preços mais altos e exigir padrões sanitários rigorosos — o que funciona como um selo de qualidade para outros compradores.

A título de comparação, os Estados Unidos — que também têm regras sanitárias estritas — compraram US$ 867 milhões em proteínas animais brasileiras no mesmo período, ficando à frente da UE. A diferença é que Washington não impôs restrições documentais semelhantes, o que sugere que a decisão europeia tem componentes políticos além dos técnicos.

Antimicrobianos e o acordo Mercosul-UE

Fontes europeias ouvidas pela agência AFP relacionaram a decisão ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que começou a valer provisoriamente em 1º de maio e enfrenta forte oposição de produtores rurais europeus, especialmente na França. O temor é que, com tarifas menores, aumente o fluxo de exportações agropecuárias do Brasil — maior fornecedor global de carnes, café e soja — tirando mercado dos produtores locais. A regulação sanitária e ambiental é frequentemente citada como argumento para restringir a entrada de produtos sul-americanos.

O comissário europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, afirmou que “nossos agricultores seguem alguns dos padrões de saúde e antimicrobianos mais rigorosos do mundo. Portanto, é legítimo que os produtos importados estejam sujeitos aos mesmos requisitos”, segundo a AFP. Apesar da posição pública, autoridades europeias indicaram que a lista poderá ser atualizada em breve, caso o governo brasileiro responda às solicitações pendentes — o que sugere que há espaço para negociação até setembro.

Resposta brasileira

O governo brasileiro reagiu com surpresa em maio, quando a decisão foi comunicada pela primeira vez, e afirmou que tomaria medidas para reverter a situação. Em maio, o Ministério da Agricultura publicou uma portaria proibindo a importação, fabricação e uso de aditivos melhoradores de desempenho que contenham antimicrobianos importantes para a medicina humana ou veterinária. A medida busca alinhar as práticas brasileiras às exigências europeias.

Entidades do setor, como a Abiec (exportadores de carne bovina) e a ABPA (produtores de frango e porco), ressaltaram que o Brasil “segue plenamente habilitado a exportar” e que as empresas estão elaborando protocolos para atender as exigências europeias. A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) destacou que “o Brasil possui uma cadeia produtiva reconhecida internacionalmente e que vem avançando continuamente no controle sanitário”.

📊 Número do Dia

US$ 1,6 bilhão , Valor das exportações brasileiras de proteínas animais para a UE em 2025, que podem ser barradas se o país não comprovar regras sanitárias até setembro

Por que isso importa

Para o exportador, a restrição europeia pode fechar um mercado que paga preços premium e funciona como selo de qualidade global. Para o cidadão, a medida expõe a dependência brasileira de poucos mercados — a China sozinha compra 30% das proteínas animais exportadas — e a vulnerabilidade a barreiras não-tarifárias que misturam exigências sanitárias legítimas com protecionismo comercial. A janela até setembro é crucial: se o Brasil não apresentar as garantias exigidas, perde não apenas receita, mas também reputação em um momento em que o acordo Mercosul-UE enfrenta resistência política na Europa.


Fonte original: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/06/ue-formaliza-retirada-do-brasil-de-lista-para-exportacao-de-carnes-bovina-e-de-aves-e-outros-produtos-de-origem-animal.ghtml

Foto de Roberta Silva

Roberta Silva

Jornalista econômica especializada em política monetária e macroeconomia brasileira. Acompanha as decisões do Banco Central, os números do IPCA e os impactos da Selic. Responsável pelas seções Economia e Política Econômica.
Banner vertical do jornal Correio Capital com mensagem institucional convidando para acompanhar análises sobre a economia brasileira e assinar a newsletter.

Últimas notícias