O programa Luz para Todos, criado em 2003 para universalizar o acesso à energia elétrica no Brasil, acaba de ganhar novo fôlego. Segundo decreto publicado no Diário Oficial da União, o governo federal destinará R$ 6 bilhões em 2026 para expandir a eletrificação rural, com foco especial na Amazônia Legal — região que concentra os maiores desafios de infraestrutura do país. O prazo de execução foi estendido até dezembro de 2028, com encerramento financeiro previsto para 2029.
Para entender a dimensão do desafio: ainda existem cerca de 238 mil famílias brasileiras sem acesso à energia elétrica, segundo levantamento do Ministério de Minas e Energia. Isso representa aproximadamente 1 milhão de pessoas vivendo sem luz em pleno século XXI — um número equivalente à população de cidades como São Bernardo do Campo (SP). A maior parte dessas famílias está concentrada em áreas rurais e regiões remotas da Amazônia, onde a geografia dificulta e encarece a instalação de redes elétricas convencionais.
Desde sua criação, o Luz para Todos já beneficiou 3,8 milhões de famílias, alcançando cerca de 17,9 milhões de pessoas em todo o país. O novo decreto estabelece prioridades claras: famílias chefiadas por mulheres inscritas no Cadastro Único, domicílios com pessoas com deficiência ou idosos dependentes, e comunidades tradicionais como quilombolas, indígenas e ribeirinhos. Além de residências, o programa atenderá infraestruturas públicas como postos de saúde, escolas e sistemas de abastecimento de água — é como se o governo estivesse levando não apenas luz, mas as condições básicas para desenvolvimento econômico local.
A título de comparação, países como Índia e Bangladesh enfrentaram desafios semelhantes nas últimas décadas. A Índia, por exemplo, declarou eletrificação universal em 2018 após conectar mais de 600 milhões de pessoas em áreas rurais, combinando redes convencionais com sistemas solares descentralizados. O Brasil adota estratégia parecida: o decreto prevê soluções energéticas adequadas às especificidades territoriais, priorizando sustentabilidade, eficiência energética e descarbonização — essencial para preservar o bioma amazônico.
Do orçamento total de R$ 6 bilhões em 2026, R$ 2,57 bilhões são recursos novos destinados especificamente ao atendimento de até 122 mil famílias. O restante complementa investimentos já programados, sinalizando que o governo pretende acelerar o ritmo de conexões após anos de execução mais lenta. Para efeito de comparação, o valor equivale a cerca de 0,05% do PIB brasileiro — investimento modesto em termos macroeconômicos, mas com potencial de impacto social significativo nas regiões mais isoladas.
O que muda na prática
Para as famílias beneficiadas, o acesso à energia elétrica representa muito mais do que acender uma lâmpada. Significa poder refrigerar alimentos (reduzindo desperdício e melhorando segurança alimentar), acessar internet e educação à distância, e viabilizar pequenos negócios locais — como beneficiamento de produtos agrícolas ou artesanato. O decreto menciona explicitamente o objetivo de fortalecer o desenvolvimento socioeconômico local e a geração de trabalho e renda, reconhecendo que energia é infraestrutura básica para qualquer atividade produtiva.
Para empresas do setor elétrico, o programa representa oportunidades de contratos públicos, especialmente para aquelas especializadas em soluções descentralizadas como sistemas solares fotovoltaicos — tecnologia cada vez mais competitiva em regiões remotas onde estender redes convencionais é economicamente inviável. O decreto também prevê qualificação de mão de obra local, o que pode criar empregos nas próprias comunidades atendidas.
📊 Número do Dia
238 mil — Famílias brasileiras ainda vivem sem acesso à energia elétrica, concentradas principalmente em áreas rurais e na Amazônia Legal
Por que isso importa
Energia elétrica é pré-requisito para desenvolvimento econômico e social. Sem ela, famílias rurais ficam isoladas da economia digital, crianças estudam com dificuldade, alimentos se perdem por falta de refrigeração e pequenos negócios não conseguem operar. Para o Brasil, universalizar o acesso à energia significa reduzir desigualdades regionais históricas e integrar populações que ainda vivem à margem da economia moderna. Com R$ 6 bilhões investidos e foco na Amazônia, o programa pode finalmente fechar o gap de eletrificação que persiste há décadas — mas o prazo até 2028 será teste importante para a capacidade de execução do governo em regiões logisticamente desafiadoras.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-05/governo-amplia-luz-para-todos-na-amazonia-legal












