O presidente Lula afirmou que o Brasil pode se transformar em uma “Arábia Saudita dos combustíveis renováveis”, segundo reportagem do Valor Econômico publicada nesta segunda-feira. A declaração foi feita durante a Hannover Messe 2026, a maior feira industrial da Alemanha, e responde diretamente a uma proposta em discussão na União Europeia (UE) que pode restringir o uso de biodiesel de soja e de palma pelas empresas da região.
O biodiesel é um combustível produzido a partir de óleos vegetais — como soja, palma ou girassol — que pode substituir o diesel comum derivado do petróleo. A proposta europeia argumenta que a produção desses biocombustíveis gera “mudanças indiretas no uso da terra”, ou seja, que áreas de floresta ou de produção de alimentos poderiam ser convertidas em plantações para combustível, segundo relatório da Comissão Europeia que destacou a expansão da soja no Brasil.
Lula rebateu essa tese de forma direta: “Ninguém seria louco de substituir produção de comida por biodiesel”, afirmou o presidente à imprensa. Ele defendeu que o Brasil é capaz de produzir biocombustíveis “sem comprometer a produção de alimentos e áreas de florestas”, posicionando o biodiesel como uma “opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transporte”.
Apoio alemão e contexto global
O primeiro-ministro alemão Friedrich Merz ofereceu apoio indireto à posição brasileira. Merz afirmou que “não deveríamos descartar tecnologias que vão se tornar relevantes daqui a 20, 30 anos”, destacando que há mais de 1 bilhão de carros a combustão nas estradas do mundo e que a descarbonização (redução das emissões de carbono) não pode depender apenas de carros elétricos.
A título de comparação, a União Europeia tem priorizado a eletrificação da frota de veículos, com metas para banir a venda de carros novos a combustão até 2035. Já o Brasil, que possui a segunda maior frota de veículos flex do mundo (atrás apenas dos Estados Unidos em veículos alternativos), aposta em uma matriz energética mais diversificada, combinando etanol, biodiesel e eletrificação.
O setor de biocombustíveis brasileiro movimentou cerca de R$ 120 bilhões em 2025, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), e emprega diretamente mais de 1 milhão de pessoas. A eventual restrição europeia ao biodiesel de soja poderia afetar exportações brasileiras para o bloco, embora o principal destino do biodiesel nacional seja o mercado interno, onde há mandato de mistura obrigatória ao diesel comum.
📊 Número do Dia
1 bilhão , Número de carros a combustão nas estradas do mundo, segundo o premiê alemão Friedrich Merz — uma frota que não pode ser descarbonizada apenas com veículos elétricos
Por que isso importa
Para o setor de biocombustíveis brasileiro, a proposta europeia representa uma ameaça comercial e simbólica. Embora o mercado interno absorva a maior parte da produção, restrições na UE podem criar precedente para outros países e afetar a imagem do Brasil como produtor sustentável. Para o cidadão, o debate impacta o preço dos combustíveis: qualquer restrição à produção de biodiesel pode pressionar os custos do diesel, combustível essencial para o transporte de cargas e, consequentemente, para os preços dos alimentos. Para investidores, a defesa presidencial sinaliza apoio político ao setor, mas a incerteza regulatória europeia adiciona risco às empresas exportadoras.
Fonte original: https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/04/lula-defende-setor-de-biocombustiveis-em-feira-na-alemanha.ghtml












