O Supremo Tribunal Federal decidiu abrir uma discussão formal sobre mudanças estruturais no Judiciário brasileiro, em resposta a uma crise de confiança pública. Segundo reportagem do jornal O Globo, o presidente do STF, Edson Fachin, criou um grupo de especialistas encarregado de formular propostas de reforma, com prazo de conclusão até dezembro de 2026. A última grande reforma do sistema de Justiça brasileiro ocorreu em 2004, há mais de duas décadas.
O movimento acontece em um momento delicado para o Judiciário. Nos últimos meses, o STF enfrentou controvérsias relacionadas ao pagamento de penduricalhos (benefícios extras que aumentam o salário dos magistrados), discussões sobre transparência e embates internos entre ministros. A crise do Banco Master, que expôs relações entre integrantes do sistema de Justiça e agentes privados, ampliou o escrutínio público. Em maio, uma pesquisa Quaest registrou queda nos índices de confiança da população no Supremo — um sinal de alerta para a instituição.
O grupo de especialistas foi encarregado de refletir sobre desafios como a lentidão dos processos judiciais (que afeta milhões de brasileiros que esperam anos por decisões), a necessidade de maior transparência institucional, os impactos da inteligência artificial sobre a atividade judicial e mecanismos para fortalecer a confiança da população. Na prática, é como se o STF estivesse fazendo uma revisão geral de funcionamento, identificando o que precisa ser consertado para recuperar a credibilidade.
A iniciativa dialoga com uma proposta defendida publicamente pelo ministro Flávio Dino em abril, que sustentou a necessidade de enfrentar desafios relacionados à eficiência, governança e legitimidade institucional. O grupo será presidido pelo jurista Fernando Facury Scaff e terá como relator o desembargador federal Ney Bello. Também integram o colegiado nomes de destaque da comunidade jurídica, como Ana Paula de Barcellos, Ingo Wolfgang Sarlet e o presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Rodrigo Mudrovitsch.
A título de comparação, países como Estados Unidos e Alemanha realizam revisões periódicas de seus sistemas judiciais para adaptá-los a novos desafios tecnológicos e sociais. Nos EUA, debates sobre a composição e funcionamento da Suprema Corte são recorrentes, especialmente em períodos de polarização política. No Brasil, a discussão sobre reforma do Judiciário ganha urgência diante da percepção pública de que o sistema precisa ser mais ágil e transparente.
Paralelamente, o STF trabalha na elaboração de um Código de Conduta para ministros da Corte, relatado pela ministra Cármen Lúcia. Segundo integrantes do tribunal, as resistências inicialmente identificadas perderam força nos últimos meses, e o objetivo é construir um texto capaz de reunir amplo consenso. A proposta de reforma já foi comunicada por Fachin ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e à ministra da Gestão, Esther Dweck, sinalizando que o tema pode avançar também no Congresso Nacional.
📊 Número do Dia
22 anos , Tempo decorrido desde a última grande reforma do Judiciário brasileiro, realizada em 2004 pela Emenda Constitucional 45
Por que isso importa
Para o cidadão comum, uma reforma do Judiciário pode significar processos mais rápidos e decisões mais transparentes — o que impacta desde disputas trabalhistas até questões de família. Para empresas, um sistema de Justiça mais eficiente reduz custos e incertezas jurídicas, facilitando investimentos. Para o investidor, a recuperação da confiança nas instituições é fundamental para a estabilidade política e econômica do país, afetando a percepção de risco e o fluxo de capital estrangeiro. A crise de imagem do STF não é apenas institucional: ela afeta a credibilidade do Brasil como ambiente de negócios previsível.












