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Taxa das blusinhas é revogada após falhar em gerar empregos

Medida protecionista de agosto de 2024 apenas encareceu produtos para consumidores sem criar postos de trabalho na indústria nacional
Homem verificando etiqueta de preço R$ 199,99 em vestido em loja de roupas, comércio varejista
O governo federal revogou na terça-feira (13) a taxa de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, conhecida como taxa das blusinhas. A medida, em vigor desde agosto de 2024, não gerou os empregos prometidos e apenas elevou preços no varejo nacional, segundo análise da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec).

A chamada taxa das blusinhas foi criada em agosto de 2024 com a promessa de proteger a indústria nacional e gerar empregos, mas acabou apenas encarecendo produtos para o consumidor brasileiro. Segundo estudo da consultoria Global Intelligence Analytics encomendado pela Amobitec, a taxa de 20% aplicada sobre compras internacionais online de até US$ 50 (cerca de R$ 280 na cotação atual) não resultou em novos postos de trabalho nos setores beneficiados. O que aconteceu, na prática, foi que o varejo nacional aproveitou a taxação para aumentar seus próprios preços, absorvendo os benefícios da medida sem repassá-los à economia.

A análise utilizou dados públicos da Receita Federal e da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) entre 2018 e 2025, comparando o comportamento dos setores antes e depois da implementação do tributo. Os números mostram que não houve geração de emprego nem aumento de renda nos setores protegidos, apenas reajustes de preços acima da inflação. É como se o governo tivesse criado um guarda-chuva para proteger a indústria da chuva, mas quem acabou pagando pelo guarda-chuva foi o consumidor — sem que a indústria ficasse mais forte.

Desigualdade no acesso ao consumo

A taxa criou uma distorção curiosa: enquanto brasileiros de maior renda podem viajar ao exterior e trazer até US$ 1.000 em compras isentas de impostos, os mais pobres — que dependem de compras online — eram penalizados ao comprar uma blusa de US$ 20. Segundo André Porto, diretor-executivo da Amobitec, essa desigualdade foi um dos principais problemas da medida. A revogação, portanto, corrige uma injustiça: quem não pode viajar para Miami ou Paris agora volta a ter acesso a produtos importados mais baratos pela internet.

A título de comparação, países como os Estados Unidos e membros da União Europeia adotam limites bem mais altos para isenção de pequenas compras internacionais. Nos EUA, remessas de até US$ 800 entram sem taxação, enquanto na Europa o limite é de 150 euros (cerca de US$ 160). O Brasil, ao taxar compras a partir de US$ 50, estava na contramão das práticas internacionais, dificultando o acesso ao consumo justamente para quem mais precisa de preços competitivos.

Indústria e varejo criticam a revogação

Nem todos celebram o fim da taxa. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) e entidades do setor têxtil manifestaram preocupação com a decisão. O argumento central é que a revogação cria vantagem competitiva para empresas estrangeiras, que não enfrentam a mesma carga tributária das companhias brasileiras. Segundo essas entidades, plataformas internacionais como Shein e Alibaba passam a competir em condições desiguais com o varejo e a indústria nacionais, que arcam com impostos mais altos sobre produção e venda.

A Amobitec, que reúne empresas como Amazon, Shein, Uber e iFood, defende que o retorno ao modelo anterior é mais justo e alinhado às práticas globais. Para a associação, a taxa representava uma proteção artificial que beneficiava apenas grandes varejistas, sem fortalecer a cadeia produtiva nacional. A discussão agora se desloca para como equilibrar competitividade internacional e proteção à indústria local — um debate que promete continuar aceso nos próximos meses.

📊 Número do Dia

0% — de aumento no emprego nos setores protegidos pela taxa das blusinhas, segundo estudo baseado em dados da Receita Federal e PNAD entre 2018 e 2025

Por que isso importa

Para o consumidor de baixa renda, a revogação significa acesso a produtos importados mais baratos, ampliando o poder de compra. Para a indústria e o varejo nacionais, representa um desafio competitivo maior frente a plataformas internacionais. E para o debate econômico brasileiro, expõe a dificuldade de equilibrar proteção ao mercado interno com justiça tributária e acesso ao consumo — um dilema que não se resolve apenas com tarifas.


Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-05/revogacao-da-taxa-das-blusinhas-corrige-distorcoes-diz-amobitec

Foto de Vitor Ribeiro

Vitor Ribeiro

Jornalista especializado em comércio internacional e economia global. Cobre as exportações brasileiras, o agronegócio e as relações comerciais do Brasil com o mundo. No Correio Capital, assina as seções Comércio Global e Brasil no Mundo.
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