O Brasil pagou R$ 1,08 trilhão em juros da dívida pública nos últimos 12 meses, segundo dados do Banco Central. Esse valor representa 8,35% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo o que o país produz em um ano). Para três economistas consultadas pela Agência Brasil, esse é o verdadeiro motor do endividamento público — e não os gastos com serviços essenciais como saúde, educação e aposentadorias, chamados de gastos “primários”.
A professora Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), é direta: “É uma hipocrisia apontar que os juros altos respondem à elevação da dívida, porque são os juros que a causam”, afirma. Segundo ela, quando se decompõe a dívida pública brasileira, o déficit primário (quando o governo gasta mais em serviços do que arrecada) é o componente que menos impacta o endividamento.
A dívida cresce — e os juros são os culpados
Em 2026, a Dívida Bruta do Governo Central — que reúne União, INSS, estados e municípios — cresceu 1,4 ponto percentual, chegando a 80,1% do PIB (R$ 10,4 trilhões). Segundo o Banco Central, o principal responsável por esse aumento foram os juros nominais, que sozinhos adicionaram 2,4 pontos percentuais ao endividamento. É como se, em uma conta de cartão de crédito, os juros fossem tão altos que a dívida crescesse mesmo sem novas compras.
Maria Mello de Malta, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai além: “O que mais me choca é usar um país que tem o tamanho do Brasil como uma simples plataforma financeira, como se fôssemos Suíça ou Ilhas Cayman”, critica. Para ela, o modelo econômico atual — que combina juros altos com exigências de corte de gastos — é uma decisão política que favorece o setor financeiro em detrimento da população.
Comparação internacional: Brasil lidera em juros reais
O Brasil pratica a segunda maior taxa de juros reais (descontada a inflação) do mundo, atrás apenas da Rússia. A título de comparação, países emergentes como México e Índia operam com juros reais bem mais baixos, o que facilita o investimento produtivo e reduz o custo da dívida pública. Enquanto isso, o Banco Central brasileiro, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), mantém a taxa Selic elevada e pede “disciplina fiscal” — ou seja, corte de gastos públicos.
A professora Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), reconhece que juros altos reduzem a inflação (o aumento generalizado de preços), mas alerta para os custos sociais. “Quem está pagando esses juros altos são as pessoas que precisam do dinheiro para comer, morar, cuidar da sua saúde”, afirma. Segundo ela, o combate à inflação deveria vir também pelo estímulo à oferta — ou seja, aumentando a produção para baixar os preços — e não apenas pelo aperto da demanda via juros.
Gastos públicos: vilão ou vítima?
A tese dominante no debate econômico brasileiro é que os gastos públicos estimulam a demanda, pressionam a inflação e, por isso, obrigam o Banco Central a subir os juros. A solução seria cortar despesas com saúde, educação e aposentadorias. Mas as economistas consultadas contestam essa lógica.
“Não tem como o governo, atendendo ao Banco Central, reduzir gastos do dia para a noite. O Estado não controla a saúde ou educação da população”, explica Maria Malta. Juliane Furno complementa: “O Estado brasileiro escolheu prover saúde de forma universal, ter educação pública, garantir assistência social — é claro que isso custa mais do que no Chile, por exemplo, mas são escolhas distintas.”
Além disso, o próprio Banco Central estima que cada 1 ponto percentual de aumento da Selic aumenta a dívida em mais de R$ 50 bilhões. É como se o remédio para a dívida (juros altos) piorasse a doença.
Privatizações não resolvem
A professora Maria Malta também questiona a tese de que privatizações ajudariam a reduzir a dívida. “Na hora que você privatiza, você não privatiza só o custo. Você privatiza o lucro também”, argumenta. Ela cita o exemplo da Eletrobras: após a privatização, o Estado deixou de receber os lucros da empresa, que poderiam ajudar a melhorar a situação fiscal.
📊 Número do Dia
R$ 1,08 trilhão — Valor gasto pelo Brasil com juros da dívida pública nos últimos 12 meses — equivalente a 8,35% do PIB
Por que isso importa
Para o cidadão, juros altos encarecem o crédito, dificultam o acesso a financiamentos e pressionam o endividamento das famílias — que levou o governo a lançar o Novo Desenrola. Para o investidor, a taxa Selic elevada torna os títulos públicos muito atrativos, mas desestimula o investimento produtivo. Para as empresas, o custo do crédito sobe, reduzindo a capacidade de expansão e contratação. O debate sobre juros versus gastos públicos define, na prática, se o Brasil será uma plataforma financeira ou uma economia produtiva.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-05/juros-pressionam-divida-mais-que-gastos-publicos-dizem-economistas












