O Brasil está retomando uma tecnologia antiga para resolver um problema moderno: como guardar a energia gerada por fontes renováveis como sol e vento, que não produzem o tempo todo. Em abril, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou duas resoluções que estabelecem diretrizes para o desenvolvimento de usinas hidrelétricas reversíveis — sistemas que funcionam como uma bateria gigante, armazenando energia excedente e liberando-a nos momentos de maior demanda.
O funcionamento é relativamente simples: quando há sobra de energia na rede (por exemplo, ao meio-dia, quando painéis solares produzem no máximo), a usina usa essa energia para bombear água de um reservatório inferior para outro, mais alto. Nos horários de pico de consumo, como no início da noite, a água armazenada desce e gera eletricidade, exatamente como uma hidrelétrica convencional. É como encher uma caixa d’água quando a água está sobrando, para usá-la depois quando faltar.
Por que o Brasil precisa disso agora
Nos últimos dez anos, o país diversificou sua matriz energética com forte expansão de usinas eólicas e solares. Essas fontes são limpas, mas têm um problema: não geram energia de forma constante. O sol não brilha à noite e o vento não sopra o tempo todo, criando momentos de sobra e falta de energia na rede elétrica. Segundo a Abrage, entidade que reúne as grandes geradoras, o Brasil já enfrenta déficit de flexibilidade, com cortes frequentes de geração renovável (o chamado curtailment) quando há excesso de oferta.
As usinas reversíveis podem viabilizar uma capacidade de ao menos 38 gigawatts no Brasil, o equivalente a 15% de toda a potência instalada atualmente no país, segundo estimativas da Abrage. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já começou a estruturar um plano para desenvolvimento desses sistemas, com publicação prevista para breve. O Ministério de Minas e Energia afirma que os sistemas serão usados como instrumento de planejamento energético, com foco na segurança e modernização da operação do sistema elétrico.
O mundo já usa essa tecnologia em larga escala
Segundo levantamento do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, o armazenamento hidráulico já responde por mais de 90% da capacidade de armazenamento de energia em operação no mundo, somando cerca de 189 GW em 2024. A China lidera esse movimento e deve alcançar 120 GW até 2030, enquanto os Estados Unidos planejam superar 57 GW até 2050. A título de comparação, o Brasil tem hoje 110 GW de capacidade hidrelétrica instalada — mas quase nada em armazenamento reversível.
A tecnologia tem vantagens importantes sobre outras formas de armazenamento, como baterias químicas. Usinas reversíveis têm vida útil de 80 a 100 anos, enquanto baterias duram cerca de 15 anos. Além disso, conseguem entregar energia por períodos mais longos. O Brasil tem vantagens naturais para essa tecnologia: relevo favorável, geografia adequada e indústria capaz de produzir os equipamentos necessários.
O Brasil já teve essas usinas — e as abandonou
Entre 1939 e 1955, o país construiu quatro usinas hidrelétricas reversíveis no eixo Rio-São Paulo: Pedreira, Traição e Edgard de Souza (em São Paulo) e Vigário (no Rio de Janeiro). Dessas, uma foi desativada e as demais não operam mais como usinas reversíveis. A grande participação das hidrelétricas convencionais na matriz elétrica brasileira permitiu postergar o uso de tecnologias de armazenamento por décadas.
Agora, com a redução de novos projetos hidrelétricos tradicionais e o crescimento acelerado de fontes renováveis intermitentes, as usinas reversíveis voltam a ser atraentes. A regulamentação deve estabelecer leilões e contratos de concessão de no mínimo 30 anos para viabilizar os investimentos. Segundo Marisete Dadald, presidente da Abrage, são necessários pelo menos quatro anos entre estudos de viabilidade e construção das usinas, o que exige agilidade na definição dos detalhes técnicos.
O Estado do Rio de Janeiro foi escolhido em 2019 como projeto piloto, com quinze locais identificados para estudos em municípios como Natividade, Varre e Sai, Bom Jesus, Carmo e Sumidouro. Segundo a EPE, o estado foi escolhido por estar próximo a grandes centros de consumo e ter dimensão territorial reduzida, permitindo análise mais controlada. Projetos em circuitos fechados, que não dependem do fluxo natural de rios, são considerados mais viáveis por terem menor impacto ambiental.
📊 Número do Dia
38 GW , Capacidade de armazenamento hidráulico que pode ser viabilizada no Brasil, equivalente a 15% da potência instalada atual do país
Por que isso importa
Para o cidadão, o armazenamento de energia significa maior segurança no fornecimento de eletricidade, reduzindo o risco de apagões nos horários de pico. Para empresas do setor elétrico, abre oportunidades de investimento em uma tecnologia madura, com vida útil de até 100 anos e contratos de concessão de 30 anos. Para o país, representa um caminho para aproveitar melhor a energia renovável que hoje é desperdiçada, reduzindo emissões de carbono sem comprometer a confiabilidade do sistema elétrico.












