O setor de saneamento brasileiro está passando por uma transformação tecnológica para enfrentar um problema crônico: cerca de 40% da água tratada se perde antes de chegar aos consumidores. Segundo reportagem do jornal O Globo, empresas como Iguá, Cedae e Aegea estão usando inteligência artificial (sistemas de computador que aprendem e tomam decisões), sensores e algoritmos (conjuntos de regras matemáticas) para monitorar redes em tempo real e detectar vazamentos. É como se cada cano da cidade tivesse um médico digital acompanhando sua saúde 24 horas por dia.
A economia circular — modelo que transforma resíduos em novos produtos, fechando o ciclo de produção — está gerando receitas adicionais para as concessionárias. O lodo do esgoto, que antes ia para aterros, agora vira fertilizante ou biogás (gás produzido pela decomposição de matéria orgânica, usado como combustível). O Brasil tem potencial para produzir 120 milhões de m³ de biogás por dia, mas ainda usa apenas uma fração desse volume, conforme dados citados pela advogada Ivana Cota, do Ciari Moreira Advogados.
Na prática, a Iguá já monitora 45% do volume distribuído com medição inteligente — índice que chega a 65% no Rio de Janeiro. A empresa usa hidrômetros conectados à internet que acompanham o consumo em tempo real, identificando fraudes e vazamentos com precisão. Em Cuiabá, um sistema israelense integra dados de pressão, vazão e qualidade da água em nuvem. A título de comparação, países como Singapura já reduzem suas perdas de água para menos de 5% usando tecnologias similares, enquanto a média brasileira permanece em 40%.
A Cedae, responsável pelo abastecimento no Rio de Janeiro, desenvolveu com startups uma plataforma de IA que antecipa em até sete dias riscos à qualidade da água captada na ETA Guandu. O sistema prevê eventos como chuvas intensas ou floração de algas (crescimento excessivo de plantas aquáticas que podem contaminar a água), permitindo que a estação se prepare com antecedência. O lodo da Cedae, diferente do esgoto, será transformado em tijolos para construção civil.
A Aegea, que controla a Águas do Rio, evitou o desperdício de 5,3 bilhões de litros de água em 2024 — volume suficiente para abastecer 1,3 milhão de pessoas por um ano, segundo o CEO Radamés Casseb. A empresa criou a Apura, unidade de negócios que trata esgoto e o transforma em água para uso industrial, substituindo a captação em mananciais (rios, lagos e reservatórios naturais). Um projeto com a Braskem em Duque de Caxias (RJ) prevê abastecer 100% da produção da petroquímica com água de reúso.
O setor de saneamento consome cerca de 3% da eletricidade do país, segundo dados citados na reportagem. Por isso, a eficiência energética é crucial para a viabilidade econômica dos projetos — é como reduzir a conta de luz de uma casa que já tem despesas altas. A produção de biogás a partir do lodo ajuda as empresas a gerarem sua própria energia, reduzindo custos operacionais.
📊 Número do Dia
40% , Percentual da água tratada no Brasil que se perde antes de chegar aos consumidores, problema que a IA e sensores buscam reduzir
Por que isso importa
Para o cidadão, a redução de perdas pode significar tarifas mais baixas e abastecimento mais confiável. Para as empresas de saneamento, a economia circular cria novas fontes de receita (venda de fertilizantes, biogás e água de reúso) e reduz custos operacionais, tornando os projetos mais viáveis financeiramente. Para investidores, o setor ganha atratividade ao combinar eficiência operacional com sustentabilidade, especialmente num país onde apenas 55% da população tem coleta de esgoto, segundo dados públicos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento.












