Giselle Lai, da Fidelity International, argumenta que o caso de uso mais relevante para fundos tokenizados no longo prazo é a gestão de balanços de grandes instituições, como fundos de pensão, e não a liquidez contínua. A executiva contraria a narrativa mais comum no mercado, que costuma destacar a possibilidade de negociar ativos financeiros a qualquer hora do dia ou da noite como o principal atrativo da tokenização (processo de transformar um ativo tradicional, como ações ou títulos, em um token digital registrado em blockchain, uma espécie de cartório digital aberto a todos).
Segundo Lai, conforme reportou a CoinDesk, fundos de pensão e outras instituições globais enfrentam desafios operacionais complexos ao gerenciar ativos em diferentes países, fusos horários e sistemas de liquidação. A tokenização permitiria que essas organizações consolidassem e movimentassem recursos entre jurisdições de forma mais eficiente, reduzindo custos e tempo de processamento. Para contextualizar, um fundo de pensão brasileiro que investe em títulos americanos e europeus precisa lidar com diferentes prazos de liquidação (o tempo entre a compra e a efetiva transferência do ativo): no Brasil, ações liquidam em dois dias úteis (D+2), enquanto nos EUA o padrão é um dia útil (D+1). A tokenização poderia unificar esses processos em uma única infraestrutura digital.
A visão de Lai contrasta com o discurso predominante no setor de criptomoedas, que frequentemente promove a negociação 24/7 como a grande inovação. Para fundos de pensão, que administram recursos de aposentadoria de milhões de trabalhadores e operam com horizontes de décadas, a capacidade de negociar às 3 da manhã é menos relevante do que a eficiência operacional e a redução de custos de back-office (as operações administrativas e de liquidação que acontecem nos bastidores de uma instituição financeira). A título de comparação, os maiores fundos de pensão brasileiros, como Previ e Petros, gerenciam juntos mais de R$ 300 bilhões em ativos (dados públicos de 2024), com operações que envolvem múltiplas classes de ativos e geografias.
A Fidelity International, braço global da gestora americana Fidelity Investments, tem explorado ativamente a tokenização de fundos. A declaração de Lai sinaliza que grandes gestoras tradicionais enxergam a tecnologia blockchain como ferramenta de infraestrutura, não como canal de especulação ou trading de alta frequência. No Brasil, a tokenização de ativos ainda é incipiente, mas a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) já regulamentou a emissão de tokens representativos de valores mobiliários desde 2023, abrindo caminho para que fundos brasileiros explorem essa tecnologia.
📊 Número do Dia
Gestão de balanço , O caso de uso prioritário para tokenização em fundos de pensão, segundo a Fidelity International, superando a liquidez 24/7.
Por que isso importa
A declaração de uma executiva da Fidelity International redefine a narrativa sobre tokenização no mercado institucional. Para investidores brasileiros, isso significa que a adoção de blockchain por grandes fundos não virá pela porta do trading especulativo, mas pela eficiência operacional. Fundos de pensão brasileiros, que administram a aposentadoria de milhões de trabalhadores, podem se beneficiar dessa tecnologia para reduzir custos e agilizar operações globais, sem necessariamente expor os recursos a mercados de alta volatilidade. A visão pragmática da Fidelity contrasta com o hype de mercado e aponta para uma adoção mais sólida e menos especulativa da tecnologia blockchain no sistema financeiro tradicional.
Fonte original: https://www.coindesk.com/markets/2026/07/14/for-pension-funds-tokenization-s-real-play-is-balance-sheet-management-fidelity-s-lai-says


