A Figure, empresa de tecnologia financeira fundada por Mike Cagney (ex-CEO da SoFi), registrou US$ 1 bilhão em transações de crédito via blockchain em um único mês, conforme reportou a CoinDesk. O volume marca o auge de uma estratégia de anos para levar ativos reais (empréstimos imobiliários, crédito pessoal e até ações) para dentro de blockchains públicas, eliminando bancos intermediários e câmaras de compensação do processo.
A operação funciona assim: em vez de um empréstimo passar por bancos, corretoras e sistemas de registro separados (cada um cobrando taxas e adicionando dias ao processo), a Figure registra tudo diretamente em blockchain. Blockchain, neste contexto, funciona como um cartório digital aberto e automático: qualquer participante autorizado pode verificar quem deve o quê, sem precisar ligar para um banco ou esperar dias por confirmação. A título de comparação, um financiamento imobiliário tradicional no Brasil pode levar semanas entre aprovação, registro em cartório e liberação de recursos. Na proposta da Figure, esse fluxo seria reduzido a horas ou dias, com custos menores.
Segundo a CoinDesk, a Figure já tokenizou (transformou em ativos digitais registrados em blockchain) empréstimos imobiliários, crédito pessoal e até ações de empresas. O modelo é chamado de “ativos reais onchain” (RWA, na sigla em inglês): bens do mundo físico, como uma casa ou um contrato de empréstimo, ganham representação digital em blockchain, permitindo negociação mais rápida e barata. Para contextualizar, o mercado brasileiro de crédito imobiliário movimentou cerca de R$ 200 bilhões em 2025 (dados públicos da Abecip), mas ainda depende de cartórios, bancos e registros em papel ou sistemas fechados.
Mike Cagney fundou a SoFi, uma das maiores fintechs dos Estados Unidos, antes de criar a Figure em 2018. A aposta dele é que Wall Street adotará blockchain como infraestrutura padrão para crédito, ações e outros ativos, da mesma forma que a internet substituiu fax e correio nos anos 1990. A Figure não é uma exchange de criptomoedas: ela usa blockchain como tecnologia de registro e liquidação, mas lida com dólares, empréstimos e ações tradicionais. Em termos de mercado brasileiro, seria como se a B3 (bolsa de valores) e a Cetip (câmara de registro de crédito) fossem substituídas por um sistema público, automático e acessível a qualquer instituição financeira autorizada.
O movimento da Figure se insere numa tendência mais ampla: grandes bancos como JPMorgan e Santander já testam blockchains privadas para liquidação de títulos e câmbio. A diferença é que a Figure aposta em blockchains públicas (onde qualquer um pode auditar as transações, embora apenas participantes autorizados possam operar), enquanto bancos tradicionais preferem redes fechadas. Historicamente, Wall Street resiste a mudanças de infraestrutura (a bolsa de Nova York só abandonou o pregão físico completamente em 2020, por exemplo), mas a pressão por custos menores e velocidade maior tem acelerado testes com blockchain.
📊 Número do Dia
US$ 1 bilhão , Volume movimentado pela Figure em transações de crédito via blockchain em abril de 2026, eliminando intermediários tradicionais do processo.
Por que isso importa
Se a aposta da Figure se consolidar, o mercado de crédito global pode passar por uma transformação parecida com a que a internet trouxe para o varejo: custos menores, processos mais rápidos e menos intermediários. Para o Brasil, onde cartórios, bancos e burocracias encarecem crédito imobiliário e pessoal, a tecnologia pode abrir caminho para financiamentos mais baratos e acessíveis. Mas a adoção depende de regulação (a CVM e o Banco Central ainda estudam como tratar ativos tokenizados) e de confiança das instituições financeiras tradicionais em sistemas públicos e automáticos.
Fonte original: https://www.coindesk.com/business/2026/05/03/mike-cagney-s-second-act-turning-blockchain-into-wall-street-s-new-plumbing


