O governo brasileiro aposta que dar mais tempo livre aos trabalhadores pode, paradoxalmente, estimular a economia. Segundo o ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, em entrevista ao programa Bom Dia, Ministro da EBC, a redução da jornada de trabalho — que passaria da atual escala 6×1 para um modelo com dois dias de folga por semana — criaria condições para que mais pessoas empreendam. “Objetivamente falando, a redução é boa para o empreendedorismo. Ela vai criar mais tempo livre para as pessoas, mais autonomia para consumir e, inclusive, para empreender”, afirmou o ministro.
A lógica é simples: com mais horas disponíveis, trabalhadores poderiam usar esse tempo para criar negócios paralelos, trabalhar com aplicativos ou se preparar para mudar de carreira. É como se cada brasileiro ganhasse um dia extra por semana — tempo que poderia ser convertido em renda adicional ou em qualificação profissional. Segundo Pereira, “o que estimula o empreendedorismo é, muitas vezes, a busca por autonomia”, e a nova escala ampliaria exatamente essa liberdade de escolha sobre o próprio tempo.
Quem ganha e quem perde
O ministro reconheceu, porém, que entre 10% e 15% dos empreendedores brasileiros poderão sentir algum impacto negativo com a mudança. Em um universo de quase 45 milhões de empreendedores no país (somando formais e informais), isso representa entre 4,5 e 6,7 milhões de pessoas. Para esse grupo, o governo promete “mecanismos de suavização”, que podem incluir benefícios fiscais, mais crédito ou apoio específico. “Vamos criar uma regra que seja boa para todo mundo. O governo não vai deixar ninguém para trás”, garantiu Pereira.
A proposta beneficiaria especialmente trabalhadores de menor renda, que segundo o ministro “moram mais longe e dedicam mais tempo da vida ao trabalho”. Pereira comparou as críticas atuais à redução da jornada com resistências históricas ao fim da escravidão, à criação do salário mínimo, das férias e do décimo terceiro. “Toda vez que a gente apresenta uma nova gama de direitos aos trabalhadores, surge o medo de que o aumento de custo vai afetar a produtividade brasileira e que a economia brasileira vai acabar. E ela nunca acaba”, argumentou.
O contexto internacional
A título de comparação, diversos países já experimentam jornadas reduzidas com resultados variados. A Islândia testou a semana de quatro dias entre 2015 e 2019, com manutenção ou aumento de produtividade na maioria dos casos. No Reino Unido, um piloto em 2022 com 61 empresas mostrou que 92% das participantes mantiveram a jornada reduzida após o teste. Já a França adotou as 35 horas semanais em 2000, gerando debates até hoje sobre seus efeitos no emprego e na competitividade — um lembrete de que mudanças dessa magnitude exigem ajustes de longo prazo.
No Brasil, estudos divergem sobre os impactos no PIB (a soma de tudo que o país produz em um ano) e na inflação (o aumento generalizado de preços). A proposta tramita no Congresso, onde o presidente da Câmara, Arthur Lira, criou uma comissão especial para analisá-la, e a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) já aprovou sua admissibilidade.
📊 Número do Dia
4,5 a 6,7 milhões — Número de empreendedores que podem sentir impacto negativo com a redução da jornada, segundo estimativa do governo
Por que isso importa
Para o trabalhador, a mudança pode significar mais tempo para família, lazer ou renda extra — mas também incerteza sobre como empresas reagirão aos custos adicionais. Para o empreendedor, especialmente pequenos negócios que dependem de escalas apertadas (como comércio e serviços), pode exigir contratações ou reorganização operacional. Para o investidor, setores intensivos em mão de obra (varejo, alimentação, logística) merecem atenção: a margem de lucro pode apertar no curto prazo, mas a expansão do consumo via mais tempo livre pode compensar no médio prazo.
Fonte original: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/reducao-da-jornada-vai-favorecer-o-empreendodorismo-diz-ministro












